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sexta-feira, 12 de março de 2010

As Duas Faces do Vinho

O lado do consumidor de vinho, do enófilo, o nosso lado, bebe e aprecia as virtudes e defeitos do vinho. Tem de levar em conta naturalmente seu preço, a relação custo/benefício, do vinho do dia-a-dia e do vinho para as ocasiões especiais. Como as preferências, o paladar, as circunstâncias e as posses variam bastante, as possibilidades de escolha do vinho são praticamente infinitas.

Já do outro lado do balcão, do produtor, do importador ou do distribuidor desses mesmos vinhos, dos correntes aos vinhos-de-sonho, a perspectiva é outra.
Historicamente houve um tempo em que se dizia que a maior virtude do vinho nacional era o preço do importado. Os tempos mudaram. Sem falar em qualidade, mesmo porque o gosto é pessoal, temos hoje no mercado vinhos nacionais e importados, caros e baratos. Com o tempo parte expressiva de nossos produtores chegou à conclusão que o bom vinho importado é aliado do vinho nacional, sendo seus “inimigos” na realidade o vinho de preço aviltado, o baixo consumo e o contrabando.

Essa visão do setor proporcionou progressos importantes, como a redução do IPI para os vinhos espumantes, a desoneração dos insumos da produção (rolhas, cápsulas, etc.), o leilão de estoques excedentes e até a aprovação da mudança da taxação ad-valorem para um valor fixo por garrafa, ad-rem. Em outras palavras, o bom senso favoreceu o vinho nacional, desonerando-o, o que é diferente de procurar onerar o importado, em um país onde o consumo do vinho é pífio, também pela alta tributação que sobre ele incide.
Os recentes movimentos de revindicação do setor têm se apoiado em argumentos discutíveis. Para sensibilizar a opinião pública e a classe política, alega-se que o vinho nacional representa apenas 20% do mercado, o que não corresponde aos fatos. Na realidade a participação nacional é de 85%, dos quais 80% (do total), são de vinhos comuns, de variedades americanas e apenas 5% de vinhos finos, de viníferas. Assim , de nosso consumo anual médio per capita, de 2 litros, 85% (1,7 l) é de “vinho brasileiro”. O argumento de que mais de 20 mil famílias se dedicam a vitivinicultura desses 20% da produção também não procede. A grande parte da produção de vinhos finos nacionais está em mãos de poucas empresas maiores (quatro principalmente: Miolo, Salton, Aurora e Valduga), que, mecanizadas e automatizadas, empregam relativamente pouco pessoal.

Com a consciência de seu poder e influência e com a circunstância de terem no momento aliados conterrâneos em Brasília, o setor de vinhateiros pretende agora tentar convencer as autoridades com base em premissas falsas, recorrendo à “lei de Gerson”. Setores do setor produtor nacional procuram emplacar argumentos falsos na tentativa de convencer os ministros Tarso Genro e a toda poderosa Dilma Roussef além do líder do governo na Câmara, Henrique Fontana. Como no passado, é preciso ter em conta que, dependendo do que se pretende, o resultado pode vir a ser um “tiro no pé”. Consideremos algumas dessas pretensões:

Imposto de Importação – Aumentar o imposto de importação (II) não é a solução. Com a adoção do ad-rem em lugar do ad-valorem (27%), de valor médio atual de 3 dólares por litro, o imposto correto seria de 0,80 de dólar por litro (27% de 3 dólares), o que faria o vinho mais barato pagar mais imposto, enquanto o mais caro pagaria relativamente menos. Ocorre que após a adoção do ad-rem, pretendem os produtores aumentá-lo para 5 reais (mais de 2.2 dólares ao cambio atual), por garrafa.

Se considerarmos que um vinho que custe hoje R$ 2 CIF, paga 0,54 de dólar de II (Imposto de Importação), passaria a pagar com o aumento, 2,25 (3x0,75) reais, ou seja, quatro vezes mais do que paga hoje. Levando-se em conta a recente valorização do dólar (de cerca de 50%), conclui-se que aceita essa proposta, esse vinho barato, que concorre com o nacional, passaria a pagar seis vezes mais de II, do que pagava há alguns meses, o que convenhamos é uma ótima “proteção” ao vinho nacional. Ainda assim, nossos produtores pretendem mais. Como alternativa à adoção do ad-rem, deseja-se o aumento do ad-valorem de 27% para 55%, o que seria o fim do bom vinho no país. Será um enorme incentivo para consumo de outras bebidas, isto sim.
Sérgio de Paula Santos
É médico e crítico de vinhos.
Membro-Fundador da Federação Internacional dos Jornalistas e Escritores do Vinho (Fijev), é autor de livros sobre vinhos, o último dos quais, Memórias de Adega e Cozinha, Senac, São Paulo, 2007. Fonte:

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Tipos de Uva: Barbera


Barbera


Origem
Uva tinta de boa cepa, que produz ótimo vinho varietal, marcadamente no Piemonte, noroeste da Itália. O vinho é equilibrado, mas com certa acidez, que lhe caracteriza. Ainda ocupa categoria inferior aos filhos da Nebbiolo (Barolo e Barbaresco), em qualidade e preço, mas vem crescendo sua expressão nos últimos anos.


Regiões de produção

Casta bem italiana, a Barbera tem como sua região de referencia o Piemonte, embora possa ser encontrada em quase todo o norte e centro da Itália. Os principais vinhos de região demarcada (DOC) são Barbera d`Alba e Barbera d`Asti (Piemonte). Hoje estão surgindo Barberas especiais, a partir de parreiras com produção reduzida, vinificação mais controlada e mesmo envelhecimento em barrica, com ótimos resultados (e desespero dos mais tradicionalistas).


Características dos Vinhos

Bela cor rubi vivo, com boa transparência; aromas de frutas vermelhas, ervas finas, um toque de especiarias e talvez hortelã; no paladar a acidez acentuada e equilibrada dá um nítido frescor, e abre o apetite. Os vinhos italianos, por alguma razão que escapa aos mais entendidos, sempre vão melhor acompanhados de bons pratos, do que em "solo".


Harmonização

Como assinalado acima, a acidez do Barbera faz com que seja boa combinação com massas em molho de tomates frescos, queijos amarelos (gruyére itálico), carnes leves e aves. Um sanduíche de prosciutto di Parma, queijo itálico, e carpaccio de cogumelos ficará perfeito. Um vinho mais para o almoço, para Verão e Primavera. Fonte: http://www.academiadovinho.com.br

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A História do Vinho

Não se pode apontar precisamente o local a época em que o vinho foi feito pela primeira vez, do mesmo modo que não sabemos quem foi o inventor da roda. Uma pedra que rola é um tipo de roda; um cacho de uvas caído, potencialmente, torna-se, um tipo de vinho. O vinho não teve que esperar para ser inventado: ele estava lá, onde quer que uvas fossem colhidas e armazenadas em um recipiente que pudesse reter seu suco.

Há 2 milhões de anos já coexistiam as uvas e o homem que as podia colher. Seria, portanto, estranho se o "acidente" do vinho nunca tivesse acontecido ao homem nômade primitivo. Antes da última Era Glacial houve seres humanos cujas mentes estavam longe de ser primitivas como os povos Cro-Magnon que pintaram obras primas nas cavernas de Lascaux, na França, onde os vinhedos ainda crescem selvagem. Esses fatos fazem supor que, mesmo não existindo evidências claras, esses povos conheceram o vinho.

Os arqueólogos aceitam acúmulo de sementes de uva como evidência (pelo menos de probabilidade) de elaboração de vinhos. Escavações em Catal Hüyük (talvez a primeira das cidades da humanidade) na Turquia, em Damasco na Síria, Byblos no Líbano e na Jordânia revelaram sementes de uvas da Idade da Pedra (Período Neolítico B), cerca de 8000 a.C. As mais antigas sementes de uvas cultivadas foram descobertas na Geórgia (Rússia) e datam de 7000 - 5000 a.C. (datadas por marcação de carbono). Certas características da forma são peculiares a uvas cultivadas e as sementes descobertas são do tipo de transição entre a selvagem e a cultivada.

A videira para vinificação pertence a espécie Vitis vinifera e suas parentes são a Vitis rupestris, a Vitis riparia e a Vitis aestivalis, mas nenhuma delas possui a mesma capacidade de acumular açúcar na proporção de 1/3 do seu volume, nem os elementos necessários para a confecção do vinho. A videira selvagem possui flores machos e fêmeas, mas raramente ambas na mesma planta. A minoria das plantas é hermafrodita e podem gerar uvas, mas quase a metade do número produzido pelas fêmeas. Os primeiros povos a cultivar a videira teriam selecionado as plantas hermafroditas para o cultivo. A forma selvagem pertence a subespécie sylvestris e a cultivada à subespécie sativa.

As sementes encontradas na Georgia foram classificadas como Vitis vinifera variedade sativa, o que serve de base para o argumento de que as uvas eram cultivadas e o vinho presumivelmente elaborado. A idade dessas coincide com a passagem das culturas avançadas da Europa e do Oriente Próximo de uma vida nômade para uma vida sedentária, começando a cultivar tanto quanto caçavam. Nesse período começam também a surgir, além da pedra, utensílios de cobre e as primeiras cerâmicas nas margens do Mar Cáspio.

O kwervri (um jarro de argila), existente no museu de Tbilisi, na Geórgia, datado de 50000 - 6000 a.C, é outra evidência desse período. No mesmo museu existem pequenos segmentos e galhos de videiras, datadas de 3000 a.C., e que parecem ter sido parte dos adornos de sepultamento, talvez com significado místico de serem transportadas para o mundo da morte onde poderia ser plantada e dar novamente prazer.

Além das regiões ao norte dos Cáucaso (Geórgia e Armênia), a videira também era nativa na maioria das regiões mais ao sul, existindo na Anatólia (Turquia), na Pérsia (Irã) e no sul da Mesopotâmia (Iraque), nas montanhas de Zagros, entre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico. É possível que as videiras da região do Cáucaso, tenham sido levadas pelos fenícios da região onde hoje é o Líbano para toda a Europa e seriam as ancestrais de várias das atuais uvas brancas. Recentemente, foi encontrada no Irã (Pérsia), uma ânfora de 3.500 anos de contendo no seu interior uma mancha residual de vinho.

É provável que o Egito recebesse suas videiras, pelo rio Nilo, de Canaã (Líbano, Israel, Jordânia e parte da Síria) ou da Assíria (Parte do Iraque e da Arábia Saudita) ou, ainda da região montanhosa da Núbia ou da costa norte da África.

Há inúmeras lendas sobre onde teria começado a produção de vinhos e a primeira delas está no Velho Testamento. O capítulo 9 do Gênesis diz que Noé, após ter desembarcado os animais, plantou um vinhedo do qual fez vinho, bebeu e se embriagou. Entre outros aspectos interessantes sobre a história de Noé, está o Monte Ararat, onde a Arca ancorou durante o dilúvio. Essa montanha de 5.166 metros de altura é o ápice do Cáucaso e fica entre a Armênia e a Turquia. Entre as muitas expedições que subiram o monte a procura dos restos da Arca, apenas uma, em 1951, encontrou uma peça de madeira.

A questão mais complicada é onde morou Noé antes do dilúvio. Onde quer que ele tenha construído a Arca, ele tinha vinhedos e já sabia fazer o vinho. As videiras, logicamente faziam parte da carga da Arca. Uma especulação interessante é que Noé teria sido um dos muitos sobreviventes da submersão de Atlântida. Uma lenda basca celebra um herói chamado Ano que teria trazido a videira e outras plantas num barco. Curiosamente, o basco é uma das mais antigas línguas ocidentais e "ano”, em basco, também significa vinho. Na Galícia também existe uma figura legendária denominada Noya que os sumérios da Mesopotâmia diziam ser uma espécie de deus do mar denominado Oannes. Também interessante é que, na mitologia grega, Dionísio, deus do vinho, foi criado por sua tia Ino, uma deusa do mar, e a palavra grega para vinho é "oinos".

O épico babilônico Gilgamesh, o mais antigo trabalho literário conhecido (1.800 a.C.) também conta também uma história de Upnapishtim, a versão babilônica de Noé. Esse homem também construiu uma Arca, encheu-a de animais, atracou-a numa montanha, soltou sucessivamente três pássaros sobre as águas e finalmente sacrificou um animal em oferenda aos deuses. No entanto, Upnapishtim não fez vinho. O vinho aparece em outra parte dos escritos, na qual o herói Gilgamesh entra no reino do sol e lá encontra um vinhedo encantado de cujo vinho obteria, se lhe fosse permitido bebê-lo, a imortalidade que ele procurava.

O vinho está relacionado à mitologia grega. Um dos vários significados do Festival de Dionísio em Atenas era a comemoração do grande dilúvio com que Zeus (Júpiter) castigou o pecado da raça humana primitiva. Apenas um casal sobreviveu. Seus filhos eram: Orestheus, que teria plantado a primeira vinha; Amphictyon, de quem Dionísio era amigo e ensinou sobre vinho; e Helena, a primogênita, de cujo que nome veio o nome da raça grega.

A mais citada de todas as lendas sobre a descoberta do vinho é uma versão persa que fala sobre Jamshid, um rei persa semi-mitológico que parece estar relacionado a Noé, pois teria construído um grande muro para salvar os animais do dilúvio. Na corte de Jamshid, as uvas eram mantidas em jarras para serem comidas fora da estação. Certa vez, uma das jarras estava cheia de suco e as uvas espumavam e exalavam um cheiro estranho sendo deixadas de lado por serem inapropriadas para comer e consideradas possível veneno. Uma donzela do harém tentou se matar ingerindo o possível veneno. Ao invés da morte ela encontrou alegria e um repousante sono. Ela narrou o ocorrido ao rei que ordenou, então, que uma grande quantidade de vinho fosse feita e Jamshid e sua corte beberam da nova bebida.

Os mesopotâmios também eram bebedores de vinho. A Mesopotâmia (Iraque) está situada entre os rios Tigre e Eufrates que correm ao sul do Cáucaso (o Eufrates nasce no Monte Ararat) e correm até o Golfo Pérsico, numa região plana, quente e árida, uma antítese da região adequada para vitivinicultura. Os sumérios aí se estabeleceram entre 4.000 a 3.000 a.C. e fundaram as cidades de Kish e Ur. De Kish provém as primeiras formas de escrita, os pictogramas, desenhados com estilete em argila úmida. Entre estes escritos há uma folha de uva. Os mesopotâmios tentaram mais tardiamente o plantio de videiras, mas, originalmente, importavam o vinho de outras regiões. Há registros de que dois séculos e meio depois o rio Eufrates foi usado para transporte de vinho da região da Armenia para Babilônia, a cidade que sucedeu Kish e Ur.

Na Mesopotâmia os sumérios originaram os semitas e Mari foi sua principal cidade, até que o Imperador Hammurabi fundou Babilônia (próxima de Bagdá) em 1790 a.C.

Os hititas que ocuparam por volta de 2.000 a.C. a região da Anatolia (Turquia) parecem ter sido entusiastas do vinho, julgando-se pela exuberância dos frascos criados para servir e tomar o vinho (cálices e frascos em forma de cabeça de animal feitos em ouro).

A propósito, o código de Hammurabi e o código dos hititas são os dois primeiros livros sobre leis de que temos conhecimento e ambos fazem referência aos vinhos. No código de Hammurabi há três tópicos relacionados com as "casas de vinho". O primeiro diz que "a vendedora de vinhos que errar a conta será atirada à água"; o segundo afirma que "se a vendedora não prender marginais que estiverem tramando e os levar ao palácio seria punida com a morte"; a última diz que "uma sacerdotisa abrir uma casa de vinhos ou nela entrar para tomar um drinque, será queimada viva".

Havia um grande intercâmbio comercial, incluindo-se aí a uva e o vinho, entre os impérios peri-mediterrâneos. Ugarit (agora Latakia) e Al-Mina, na Síria, e, posteriormente, Sidon e Tyre, mais ao sul, foram importantes portos comerciais e eram controlados pelos Cananeus a serviço do Império Assírio. Nessa região da costa mediterrânea, os fenícios, que sucederam os Cananeus e inventaram o alfabeto, fundaram outras cidades comerciais como Cartago e Cádiz. Alexandre o Grande conquistou toda a região e fundou Alexandria, um porto neutro no delta do Nilo, habitado por gregos, egípcios e judeus.

Os egípcios não foram os primeiros a fazer vinho, mas certamente foram os primeiros a saber como registrar e celebrar os detalhes da vinificação em suas pinturas que datam de 1.000 a 3.000 a.C. Havia, inclusive, expertos que diferenciavam as qualidades dos vinhos profissionalmente. Nas tumbas dos faraós foram encontradas pinturas retratando com detalhes várias etapas da elaboração do vinho, tais como: a colheita da uva, a prensagem e a fermentação. Também são vistas cenas mostrando como os vinhos eram bebidos: em taças ou em jarras, através de canudos, em um ambiente festivo, elegante, algumas vezes, licencioso. O consumo de vinho parece ter sido limitado aos ricos, nobres e sacerdotes. Os vinhedos e o vinho eram oferecidos aos deuses, especialmente pelos faraós, como mostram os registros do presente que Ramses III (1100 a.C.) fez ao deus Amun.

Um fato muito interessante e que mostra o cuidado que os egípcios dedicavam ao vinho é a descoberta feita em 1922 na tumba do jovem faraó Tutankamon (1371-1352 a.C.). Foram encontradas 36 ânforas de vinho algumas das quais continham inscrições da região, safra, nome do comerciante e até a inscrição "muito boa qualidade"!

Quando do surgimento do Egito (por volta de 3.000 a.C.), os precursores dos gregos ocuparam quatro áreas principais em volta do mar Egeu: o sul e centro--leste da Grécia, a ilha de Creta, as ilhas Cicládicas no sul do Egeu e a costa noroeste da Ásia Menor. Nessas regiões foram cultivadas oliveiras e videiras, duas novas culturas que acrescentaram nova dimensão à dieta primitiva de milho e carne e que podiam crescer em terras pobres e pedregosas para o cultivo de grãos. O azeite de oliva e o vinho foram poderosos estímulos ao comércio e, consequentemente, à troca de idéias. O vinho, em particular, trouxe uma nova dimensão nas relações pessoais e comerciais, na medida em que leva naturalmente a festividades, confidencias e senso de oportunidade.

No ano 2.000 a.C. Creta era desenvolvida, em parte pelo contato com o Egito, mas por volta de 1.500 a.C. foi superada por Micena, situada no sul da Grécia, cujo povo era mais agressivo, inclusive como comerciantes e colonizadores. Os micênios visitaram desde a Sicília, no oeste, até a Síria, no Leste. Sob liderança de Agamenon, juntamente com seus vizinhos espartanos sitiaram Tróia. O gosto dos gregos pelo vinho pode ser avaliado pela descoberta recente da adega do rei Nestor, de Pilos, cidade da Peloponésia (sul da Grécia). A capacidade da adega do rei foi estimada em 6.000 litros, armazenados em grandes jarras denominadas "pithoi". O vinho era levado até a adega dentro de bolsas de pele de animal que deviam contribuir para a formação do buquê do vinho.

Na Ilíada Homero fala de vinhos e descreve com lirismo a colheita durante o outono. O poeta também fala de vinhos nas narrativas da guerra de Tróia e cita a ilha de Lemnos, no mar Egeu, como a fornecedora de vinho para as tropas que sitiavam Tróia, cujo vinho era proveniente da Frigia.

Homero também descreve os vinhos gregos ao narrar as viagens de Odis-seu e entre eles está o vinho do sacerdote Maro: vinho tinto, com doçura do mel e tão forte que era diluído com água na proporção de 1:20. Quando foi aprisionado na, costa da Sicília, pelo ciclope Polifemus, Odisseu ofereceu-lhe o vinho de Maro como digestivo. Como o ciclope estava acostumado com o fraco vinho da Sicília, após tomar o vinho forte caiu em sono profundo, o que permitiu a Odisseu extrair-lhe o olho.

Entre 1.200 e 1.100 a.C. os dóricos, selvagens vindos do norte, devastaram Micena e outros impérios do Oriente Próximo, que, exceção feita ao Egito, caiu nessa época. Foi o período negro da história da Grécia. Até a arte de escrever foi perdida. Após esse período, os novos gregos tiveram mais energia e inteligência que os seus predecessores. Em dois séculos o Mar Egeu tornava-se novamente o centro das atividades criativas. O alfabeto é adotado e a linguagem escrita renasce entre 900 e 700 a.C. Nessa época os gregos, incluindo os refugiados de Micena transformaram as costas da Frigia (terra dos hititas) e da Lídia na "Grécia Oriental", trazendo sua agricultura de oliva e uva. Atenas, que não fora inteiramente destruída pelos dóricos, começava a sua liderança artística e cultural.

Um novo período se iniciou e os habitantes da Eubéia, na costa leste da Grécia Central chegaram a ilha de Chipre e a Al-Mina (na Síria) e fundaram na Itália as cidades de Cumae e Naxos, esta última na Sicília. Colonizadores de outras regiões da Grécia cruzaram o mar e fundaram outras cidades na Itália, como os corintos que fundaram Siracusa (na Sicília) e os habitantes de Rodes que fundaram Gela (na Sicília) e Naepolis (hoje Nápoles) . Os acênios, do norte da Peloponésia, fundaram Sybaris e Poseidonia (hoje Paestum) na Campania. Os espartanos fundaram Tarentum (hoje Taranto). Os ateniences chegaram à Lombardia onde fizeram contato com os etruscos.

Deste modo, a expansão da cultura grega fez com que a Sicília e a "ponta da bota" da Itália fossem designadas, nessa época, "a Magna Grécia", também chamada de "Oenotri", a terra dos vinhos.

Nessa era de intensa procura por novas terras, ocorreu também a colonização do sul da França pelos gregos habitantes da Lídia, que fugiam da invasão dos persas e fundaram Massalia (hoje Marselha) e se estabeleceram também na Córsega. Em 500 a.C. eles controlaram rotas do Rhône, do Saône, através da Borgonha, do Sena e do Loire. Massalia fazia seu próprio vinho e as ânforas para exportá-lo. Segundo o historiador romano Justiniano, "os gauleses aprenderam com os gregos uma forma civilizada de vida, cultivando olivas e videiras."

Historiadores acreditam que o primeiro vinho bebido na Borgonha foi provavelmente trazido de Marsellha ou diretamente da Grécia. É importante lembrar que em 1952, entre Paris e a Borgonha, na cidade de Vix, foi descoberta uma imensa jarra grega de fino bronze com cerca de 2 metros de altura e com capacidade de 1.200 litros originária de 600 a.C.

As ilhas gregas foram provavelmente os principais exportadores de vinho, sendo a ilha de Chios, situada ao leste, próxima ao litoral da Lídia, a mais importante delas e a que possuía o melhor vinho. As suas ânforas características foram encontradas em quase todas as regiões por onde os gregos fizeram comércio, tais como: Egito, França, Bulgária, Itália e Russia. Também a ilha de Lesbos, ao norte de Chios possuía um vinho famoso e, provavelmente, foi a fonte do Pramnian, o equivalente grego do fantástico vinho búlgaro Tokay Essenczia.

Provavelmente havia predileção pelos vinhos doces (Homero descreve uvas secadas ao sol), mas havia vários tipos diferentes de vinho. Laerte, o pai de Odisseu, cujos vinhedos eram seu orgulho e alegria, vangloriava-se de ter 50 tipos cada um de um tipo diferente de uva. Com relação à prática de adicionar resina de pinheiro no vinho, utilizada na elaboração do moderno Retsina, parece que era rara na Grécia Antiga. No entanto, era comum fazer outras misturas com os vinhos e, na verdade, raramente eram bebidos puros. Era normal adicionar-se pelo menos água e, quanto mais formal a ocasião e mais sofisticada a comida, mais especiarias aromáticas eram adicionadas ao vinho.

O amor dos gregos pelos vinhos pode ser avaliado pelos "Simpósios", cujo significado literal é "bebendo junto". Eram reuniões (daí o significado atual) onde as pessoas se reuniam para beber vinho em salas especiais, reclinados confortavelmente em divãs, onde conversas se desenrolavam num ambiente de alegre convívio. Todo Simpósio tinha um presidente cuja função era estimular a conversação. Embora muitos Simpósios fossem sérios e constituídos por homens nobres e sábios, havia outros que se desenvolviam em clima de festa, com jovens dançarinas ao som de flautas.

Entre as muitas evidências da sabedoria grega para o uso do vinho são os escritos atribuídos a Eubulus por volta de 375 a.C.: "Eu preparo três taças para o moderado: uma para a saúde, que ele sorverá primeiro, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Quando essa taça acabou, os convidados sábios vão para casa. A quarta taça é a menos demorada, mas é a da violência; a quinta é a do tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do policial, a nona da ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira dos móveis."

O uso medicinal do vinho era largamente empregado pelos gregos e existem inúmeros registros disso. Hipócrates fez várias observações sobre as propriedades medicinais do vinho, que são citadas em textos de história da medicina.

Além dos aspectos comercial, medicinal e hedônico o vinho representava para os gregos um elemento místico, expresso no culto ao deus do vinho, Dionísio ou Baco ou Líber. Entre as várias lendas que cercam a sua existência, a mais conhecida é aquela contada na peça de Eurípides. Dionísio, nascido em Naxos, seria filho de Zeus (Júpiter), o pai dos deuses, que vivia no Monte Olimpo em Thessaly e da mortal Sêmele, a filha de Cadmus, o rei de Tebas. Semele, ainda no sexto mês de gravidez, morreu fulminada por um raio proveniente da intensa luminosidade de Zeus. Dionísio foi salvo pelo pai que o retirou do ventre da mãe e o costurou-o na própria coxa onde foi mantido até o final da gestação. Dionísio se confunde com vários outros deuses de várias civilizações, cujos cultos teriam origem há 9.000 anos. Originalmente, era apenas o deus da vegetação e da fertilidade e gradualmente foi se tornando o deus do vinho, como Baco deus originário da Lídia.

O vinho chegou ao sul da Itália através dos gregos a partir de próximo de 800 a.C. No entanto, os etruscos, já viviam ao norte, na região da atual Toscana, e elaboravam vinhos e os comercializavam até na Gália e, provavelmente, na Borgonha. Não se sabe, no entanto se eles trouxeram as videiras de sua terra de origem (provavelmente da Ásia Menor ou da Fenícia) ou se cultivaram uvas nativas da Itália, onde já havia videiras desde a pré-história. Deste modo, não é possível dizer quem as usou primeiro para a elaboração de vinhos. A mais antiga ânfora de vinho encontrada na Itália é etrusca e data de 600 a.C.

O ponto crítico da história do vinho em Roma foi a vitória na longa guerra com o Império de Cartago no norte da África para controlar o Mediterrâneo Ocidental entre 264 e 146 a.C. Após as vitórias sobre o general Anibal e, a seguir, sobre os macedônios e os Sírios, houve mudanças importantes.

Os romanos começaram a investir na agricultura com seriedade e a vitivinicultura atingiu seu clímax. O primeiro a escrever sobre o tema foi o senador Catão em sua obra "De Agri Cultura". No entanto, ironicamente, o mais famoso manual foi escrito por um cartaginês, Mago, e traduzido para o latim e para o grego. O manual de Mago, mais do qualquer outro estudo, estimulava a plantação comercial de vinhedos a substituição de pequenas propriedades por outras maiores.

Uma data importante no progresso de Roma foi 171 a.C., quando foi aberta a primeira padaria da cidade, pois até então os romanos se alimentavam de mingau de cereais. Agora Roma comia pão e certamente a sede por vinho iria aumentar. Começava uma nova era e apareciam os "primeiro-cultivo" vinhos de qualidade de vinhedos específicos, equivalentes aos "grands crus" de hoje. Na costa da Campânia, mais exatamente na baía de Nápoles e na península de Sorriento estavam os melhore vinhedos. Dessa época é o maravilhoso "Opimiano" (em homenagem ao cônsul Opimius) safra de 121 a.C. do vinhedo Falernum que foi consumido, conforme registros históricos até125 anos depois. Ainda assim, os vinhos gregos ainda eram considerados pelos romanos os melhores.

No império de Augusto (276 a.C. - 14 d.C.) a indústria do vinho estava estabelecida em toda a extensão da Itália que já exportava vinhos para a Grécia, Macedônia e Dalmácia. Todos os "grands crus" vinham da região entre Roma e Pompéia, mas a região da costa adriática era também importante, em especial pelas exportações. Pompéia ocupava uma posição de destaque, podendo ser considerada a Bordeaux do Império Romano e era a maior fornecedora de vinhos para Roma. Após a destruição de Pompéia pela erupção do Vesúvio no ano 79 d.C., ocorreu uma louca corrida na plantação de vinhedos onde quer que fosse. Plantações de milho tornaram-se vinhedos, provocando um desequilíbrio do fornecimento a Roma, desvalorização das terras e do vinho.

No ano 92 d.C., o imperador Domiciano editou um decreto proibindo a plantação de novos vinhedos e de vinhedos pequenos e mandando destruir metade dos vinhedos nas províncias ultramarítimas. O decreto parece visar a proteção do vinho doméstico contra a competição do vinho das províncias e manter os preços para o produtor. O decreto permaneceu até 280 d.C., quando o imperador Probus o revogou.

Tudo que se queira saber sobre a vitivinicultura romana da época está no manual "De Re Rústica" (Sobre Temas do Campo), de aproximadamente 65 d.C, de autoria de um espanhol de Gades (hoje Cádiz), Lucius Columella. O manual chega a detalhes como: a produção por área plantada (que, surpreendentemente, é a mesma dos melhores vinhedos da França de hoje), a técnica de plantio em estacas com distância de dois passos entre elas (mais ou menos a mesma técnica usada hoje em vários vinhedos europeus), tipo de terreno, drenagem, colheita, prensagem, fermentação, etc.

Quanto ao paladar, os romanos tinham predileção pelo vinho doce, daí fazerem a colheita o mais tardiamente possível, ou, conforme a técnica grega, colher o fruto um pouco imaturo e deixá-lo no sol para secar e concentrar o açúcar (vinhos chamados "Passum"). Outro modo de obter um vinho mais forte e doce era ferver, aumentando a concentração de açúcar (originando o chamado "Defrutum") ou ainda adicionar mel (originava o "Mulsum"). Preparavam também o "semper mustum" (mosto permanente), um mosto cuja fermentação era interrompida por submersão da ânfora em água fria e, portanto, contendo mais açúcar. Esse método é o precursor do método de obtenção do "Süssreserve" das vinícolas alemãs.

Ainda no tocante ao paladar, é interessante lembrar que os romanos sempre tiveram predileção por temperos fortes na comida e também se excediam nas misturas com vinhos que eram fervidos em infusões ou macerações com ervas, especiarias, resinas e denominados "vinhos gregos" em virtude dos gregos raramente tomarem vinhos sem temperá-los. Plínio, Columella e Apícius descrevem receitas bastante exóticas.

Quanto à idade, alguns vinhos romanos se prestavam ao envelhecimento, os fortes e doces expostos ao ar livre e os mais fracos contidos em jarras enterrados no chão. Um recurso usado para envelhecer o vinho era o "fumarium", um quarto de defumação onde as ânforas com vinho eram colocadas em cima de uma lareira e o vinho defumado, tornando-se mais pálido, mais ácido e com cheiro de fumaça.

Galeno (131-201 d.C.), o famoso grego médico dos gladiadores e, posteriormente médico particular do imperador Marco Aurelio, escreveu um tratado denominado "De antídotos" sobre o uso de preparações à base de vinho e ervas, usadas como antídotos de venenos. Nesse tratado existem considerações perfeitas sobre os vinhos, tanto italianos como gregos, bebidos em Roma nessa época: como deveriam ser analisados, guardados e envelhecidos

A maneira de Galeno escolher o melhor era começar com vinhos de 20 anos, que se esperava serem amargos, e, então, provar as safras mais novas até chegar-se ao vinho mais velho sem amargor. Segundo Galeno, o vinho "Falerniano" era ainda nessa época o melhor (tão famoso que era falsificado com frequência) e o "Surrentino" o igualava em qualidade, embora mais duro e mais austero. A palavra "austero" é usada inúmeras vezes nas descrições de Galeno para a escolha dos vinhos e indica que o gosto de Roma estava se afastando dos vinhos espessos e doces que faziam da Campania a mais prestigiada região. Os vinhedos próximos a Roma, que anteriormente eram desprestigiados por causa de seus vinhos ásperos e ácidos, estavam entre os preferidos de Galeno. Ele descreveu os "grands crus" romanos, todos brancos, como fluídos, mas fortes e levemente adstringentes, variando entre encorpados e leves. Parece que o vinho tinto era a bebida do dia a dia nas tavernas.

Depois de Galeno não existem registros da evolução do paladar de Roma em relação aos vinhos. Certamente havia mercado para todos os gostos nessa metrópole que nessa época era a maior cidade do mundo Mediterrâneo e já possuía mais de um milhão de habitantes! É claro que a maior demanda era para o vinho barato que geralmente vinha de fora da península. É interessante notar que, desde a época de Galeno, o vinho da Espanha e da Gália começava a chegar a Roma. Um dos efeitos da expansão dos vinhedos nas províncias é que a produção em massa em regiões da Itália que abasteciam Roma tornou-se menos lucrativa e muitos vinhedos tornaram-se passatempo de nobres. Um desincentivo aos produtores italianos foi a criação, por volta de 250 d.C., de um imposto que consistia em entregarem uma parte do vinho produzido ao governo (para as rações do exército e para distribuição à ralé que tinha a bebida subsidiada). Talvez para remediar esta situação, em 280 d.C., o imperador Probus, revogou o já mencionado decreto editado (e amplamente ignorado!) por Domiciano em 92 d.C., proibindo o plantio de vinhedos. Probus inclusive colocou o exército para trabalhar no cultivo de novos vinhedos na Gália e ao longo do Danúbio. No entanto, foi inútil, pois o declínio do Império Romano estava começando.

Sobre a origem da vitivinicultura na França existe uma verdadeira batalha entre os historiadores. Há os que acreditam nos registros dos Romanos e outros acham que os predecessores dos Celtas estabeleceram a elaboração de vinhos na França. Há ainda os que acreditam que os franceses da idade da pedra eram vinhateiros, pois no lago de Genebra foram encontradas sementes de uvas selvagens que indicam o seu uso há 12.000 anos ou mais. Segundo a "Escola Celta" os empreendimentos do ocidente são ignorados por não terem registros escritos. Os celtas da Gália foram ativos e agressivos. Eles dominaram quase toda a região dos Alpes, na época em que os atenienses dominavam a Grécia, invadindo a Lombardia na Itália (onde fundaram Milão) e alcançando Roma, chegaram à Ásia Menor, penetrando na Macedônia e alcançaram Delphi e fundaram um acampamento no Danúbio, em Belgrado,

Os gauleses antigos já tinham contato com os vinhos do Mediterrâneo por longo tempo e, como já foi dito, os gregos haviam fundado Marselha em 600 a.C., elaborando e comercializando vinhos com os nativos. Os celtas do interior da Gália ainda não tinham alcançado o sul da França nessa época; ali habitavam os ibéricos do norte da Itália e da Espanha. Se havia vinhedos celtas na Gália eles não chegaram ao mediterrâneo. É difícil acreditar que na França havia vinhedos, pois os chefes gauleses pagavam um preço exorbitante pelos vinhos aos comerciantes romanos: um escravo por uma ânfora de vinho, isto é, trocavam o copo pelo copeiro. Marselha tornou-se parte do Império Romano por volta de 125 a.C., mas continuava sendo considerada uma cidade grega.

A primeira verdadeira colônia romana na França foi fundada anos mais tarde na costa a oeste em Narbo (hoje Narbonne) que se tornou a capital da província de Narbonensis e, de fato, de toda a chamada "Gália Transalpina". Com ponto de partida na Provence, os romanos subiram o vale do Rhône e mais tarde no reinado de César dirigiram-se a oeste e chegaram à região de Bordeaux. Bordeaux, Borgonha e Tréveris provavelmente surgiram como centros de importação de vinho, plantando a seguir as suas próprias videiras e obtendo vinhos que superaram os importados. No século II havia vinhedos na Borgonha; no século III, no vale do Loire; no século IV, nas regiões de Paris, Champagne, Mosela e Reno. Os vinhedos da Alsácia não tiveram origem romana e só surgiram no século IX.

Após a queda do Império Romano seguiu-se uma época de obscuridade em praticamente todas as áreas da criatividade humana e os vinhedos parecem ter permanecido em latência até que alguém os fizesse renascer.

Chegamos à Idade Média, época em que a Igreja Católica passa a ser a detentora das verdades humanas e divinas. Felizmente, o simbolismo do vinho na liturgia católica faz com que a Igreja desempenhe, nessa época, o papel mais importante do renascimento, desenvolvimento e aprimoramento dos vinhedos e do vinho. Assim, nos séculos que se seguiram, a Igreja foi proprietária de inúmeros vinhedos nos mosteiros das principais ordens religiosas da época, como os franciscanos, beneditinos e cistercienses (ordem de São Bernardo), que se espalharam por toda Europa, levando consigo a sabedoria da elaboração do vinho.

Dessa época são importantes três mosteiros franceses. Dois situam-se na Borgonha: um beneditino em Cluny, próximo de Mâcon (fundado em 529) e um cisterciense em Citeaux, próximo de Beaunne (fundado em 1098). O terceiro, cisterciense, está em Clairvaux na região de Champagne. Também famoso é o mosteiro cisterciense de Eberbach, na região do Rheingau, na Alemanha. Esse mosteiro, construído em 1136 por 12 monges de Clairvaux, enviados por São Bernardo, foi o maior estabelecimento vinícola do mundo durante os séculos XII e XIII e hoje abriga um excelente vinhedo estatal.

Os hospitais também foram centros de produção e distribuição de vinhos e, à época, cuidavam não apenas dos doentes, mas também recebiam pobres, viajantes, estudantes e peregrinos. Um dos mais famosos é o Hôtel-Dieu ou Hospice de Beaune, fundado em 1443, até hoje mantido pelas vendas de vinho.

Também as universidades tiveram seu papel na divulgação e no consumo do vinho durante a Idade Média. Numa forma primitiva de turismo, iniciada pela Universidade de Paris e propagada pela Europa, os estudantes recebiam salvo conduto e ajuda de custo para viagens de intercâmbio cultural com outras universidades. Curiosamente, os estudantes andarilhos gastavam mais tempo em tavernas do que em salas de aulas e, embora cultos, estavam mais interessados em mulheres, músicas e vinhos. Eles se denominavam a "Ordem dos Goliardos" e, conheciam, mais do que ninguém, os vinhos de toda a Europa.

É interessante observar que é da idade média, por volta do ano de 1.300, o primeiro livro impresso sobre o vinho: "Liber de Vinis". Escrito pelo espanhol ou catalão Arnaldus de Villanova, médico e professor da Universidade de Montpellier, o livro continha uma visão médica do vinho, provavelmente a primeira desde a escrita por Galeno. O livro cita as propriedades curativas de vinhos aromatizados com ervas em uma infinidade de doenças. Entre eles, o vinho aromatizado com arlequim teria "qualidades maravilhosas" tais como: "restabelecer o apetite e as energias, exaltar a alma, embelezar a face, promover o crescimento dos cabelos, limpar os dentes e manter a pessoa jovem". O autor também descreve aspectos interessantes como o costume fraudulento dos comerciantes oferecerem aos fregueses alcaçuz, nozes ou queijos salgados, antes que eles provassem seus vinhos, de modo a não perceberem o seu amargor e a acidez. Recomendava que os degustadores "poderiam safar-se de tal engodo degustando os vinhos pela manhã, após terem lavado a boca e comido algumas nacos de pão umedecidos em água, pois com o estômago totalmente vazio ou muito cheio estraga o paladar”. Arnaldus Villanova, falecido em 1311, era uma figura polêmica e acreditava na segunda vinda do Messias no ano de 1378, o que lhe valeu uma longa rixa com os monges dominicanos que acabaram por queimar seu livro.

Da Europa, através das expedições colonizadoras, as vinhas chegaram a outros continentes, se aclimataram e passaram a fornecer bons vinhos, especialmente nas Américas do Norte (Estados Unidos) e do Sul (Argentina, Chile e Brasil) e na África (África do Sul). A uva foi trazida para as Américas por Cristóvão Colombo, na sua segunda viagem às Antilhas em 1493, e se espalhou, a seguir, para o México e sul dos Estados Unidos e às colônias espanholas da América do Sul. As videiras foram trazidas da Ilha da Madeira ao Brasil em 1532 por Martim Afonso de Souza e plantadas por Brás Cubas, inicialmente no litoral paulista e depois, em 1551, na região de Tatuapé.

É importante mencionar um fato importantíssimo e trágico na história da vitivinicultura, ocorrido da segunda metade do século passado, em especial na década de 1870, até o início deste século. Trata-se de uma doença parasitária das vinhas, provocada pelo inseto Phylloxera vastatrix, cuja larva ataca as raízes. A Phylloxera, trazida à Europa em vinhas americanas contaminadas, destruiu praticamente todas as videiras européias. A salvação para o grande mal foi a descoberta de que as raízes das videiras americanas eram resistentes ao inseto e passaram a ser usadas como porta-enxerto para vinhas européias. Desse modo, as videiras americanas foram o remédio para a desgraça que elas próprias causaram às vitis européias.

Finalmente, é imprescindível lembrarmos as descobertas sobre os microorganismos e a fermentação feitas por Louis de Pasteur (1822-1895) e publicadas na sua obra "Études sur le Vin". Essas descobertas constituem o marco fundamental para o desenvolvimento da enologia moderna.

A partir do século XX a elaboração dos vinhos tomou novos rumos com o desenvolvimento tecnológico na viticultura e da enologia, propiciando conquistas tais como o cruzamento genético de diferentes cepas de uvas e o desenvolvimento de cepas de leveduras selecionadas geneticamente, a colheita mecanizada, a fermentação "a frio" na elaboração dos vinhos brancos, etc. Ainda que pese o romantismo de muitos que consideram (ou supõem?) os vinhos dos séculos passados como mais artesanais, os vinhos deste século têm, certamente, um nível de qualidade bem melhor do que os de épocas passadas. Na verdade algumas conquistas tecnológicas, como as substituições da rolha e da cápsula por artefatos de plástico e da garrafa por caixinhas do tipo "tetra brik" são de indiscutível mau gosto e irritam os amantes do vinho.

Resta-nos esperar que os vinhos dos séculos vindouros melhorem ou, pelo menos, mantenham o nível de qualidade sem perder o charme dos grandes vinhos do século XX!
Autor: RCLibanio

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Prove você Mesmo: Apreciar melhor

O SEGREDO DA AGUARDENTE
O ÁLCOOL E A DOÇURA desempenham um papel fundamental na apreciação do Vinho do Porto, estando intimamente ligados à própria história e evolução deste vinho. O Vinho do Porto, como hoje o conhecemos, surge como fruto de algumas mudanças que decorreram ao longo dos tempos. Duas das mais importantes, do ponto de vista sensorial, foram a adição de aguardente ao vinho que era exportado, para que ele não se deteriorasse (a partir do séc. XVII) e a lenta e polemica introdução da técnica de adição de aguardente antes do final da fermentação, que ocorreu durante o séc. XIX.
No primeiro caso, no qual a aguardente era adicionada no final da elaboração do vinho apenas para o estabilizar, regista-se uma alteração no teor alcoólico. Quanto à última técnica, que é a que ainda hoje é utilizada, torna o vinho mais doce (o que se consegue devido ao açúcar residual) e simultaneamente aumenta o seu teor alcoólico. Mas de que forma é que os sabores doce e alcoólico são apercebidos e interferem na harmonia do vinho?
Os sabores de vinho devem estar equilibrados como dois pratos de uma balança, tendo de um lado os sabores “agressivos”, como a acidez e a adstringência, e do outro os sabores “suaves”, que transmitem a sensação de doçura e untuosidade, e de que são exemplos o açúcar residual ou o álcool. Veja-se o caso de um vinho pouco adstringente. Para que possa atingir o equilíbrio, deverá também ser menos alcoólico e menos doce. É o que acontece com a maioria dos vinhos brancos, que são menos adstringentes e menos alcoólicos quando comparados com os vinhos tintos...

FÁCIL DE EXPLICAR, FÁCIL DE PERCEBER…
Apresentando elevados teores em açúcares residuais e álcool comparativamente com o seu grau de acidez e adstringência, podia supor-se que o Vinho do Porto seria um vinho desequilibrado, por ser pesado e demasiado doce. Contudo, tal não sucede, devido à percepção sensorial que se tem do álcool a teores mais elevados (cerca de 20%), que se revela muito mais agressiva e cáustica. Ou seja, contrariamente ao que sucede com a maioria dos vinhos em que o álcool (em concentrações baixas) causa uma impressão de doçura e untuosidade agradável, no Vinho do Porto ele atua como elemento agressivo, a par da acidez e dos taninos. Assim sendo, neste tipo de vinho o único elemento “suave” preponderante é o açúcar residual, que deve ser elevado para contrabalançar todos os outros.

SUGIRO-LHE DUAS PROVAS COMPARATIVAS...
Para comprovar as diferentes características do álcool, poderá fazer em sua casa o teste de adicionar num copo com água um pouco de álcool etílico (na proporção de 1/25). Durante a prova, tente aperceber-se do lado untuoso e doce. Posteriormente, adicione um pouco mais de álcool (na proporção 1/10) e tome contato com o lado agressivo, “queimante” e cáustico deste mesmo elemento. Para compreender o efeito da doçura no Vinho do Porto, poderá provar um branco seco (ou extra-seco) e um branco muito doce. Por essa razão é que este último vinho também é chamado “lágrima”.

A LÁGRIMA E A INTENSIDADE DA AROMÁTICA
O papel do álcool e da doçura não se circunscreve às razões expostas no texto: estes dois componentes também são os principais responsáveis pela formação da lágrima intensa característica do Vinho do Porto. Além disso, servem como suporte aos componentes aromáticos, aumentando a persistência do vinho na boca. Há ainda a considerar que, embora numa primeira abordagem, e devido à sua intensidade, o álcool possa mascarar os aromas contidos no vinho, este composto acaba por ter uma ação sinergética e ajudar a sobressair e a tornar esses mesmos aromas mais voláteis, contribuindo em larga medida para a grande intensidade aromática do Vinho do Porto.
Bento Amaral blue Wine

sábado, 27 de junho de 2009

Don Candido Reserva



É inegável a evolução dos vinhos nacionais. as espumantes já são uma realidade. Boas e com preços ok.
Mas por mais que tenha degustado bons tintos sempre fica aquela história: por esse preço há argentinos e chilenos muito melhores. Sempre defendi que o vinho brasileiro tem que ter qualidade e preço mais atraentes. Os vinhos do Vale do São Francisco, com a alta produtividade, estão em busca desta meta. Mas os vinhos do sul tendem a ser mais caros. Principalmente os mais artesanais.
Repito, há vinhos muito bons. mas na faixa de R$ 50 para cima. O que os coloca em competição direta até com portugueses e espanhóies de grande qualidade e mais tradição.
Daí minha surpresa com este Don Candido reserva cabernet sauvignon 2005. Um vinho agradável, com cor densa, aromas de fruta vermelhas e baunilha, acidez adequada , corpo médio, ótimo para acompanhar carnes e massas , e com um bom retrogosto. Imaginei que com um bom preço seria um excelente concorrente para aquele vinho do dia a dia. Está em pé de igualdade com os Concha y Toro de briga e cia. Para minha surpresa descobri que custa R$26,50. Portanto é um vinho que está no jogo.
Recomendo. Mauricio Tagliari, Mais um gole.

Em busca do Santo Graal do vinho nosso de cada dia

Mauricio Tagliari
De São Paulo
Um dos temas mais recorrentes quando se fala em vinho é a relação custo-benefício do produto. Outro tema é o tal vinho do dia a dia, para acompanhar o bife com batatinha... Seja em uma roda de conhecedores ou em um bate-papo com neófitos curiosos, sempre há alguém disposto a dar ou receber uma dica.
O que se pode considerar um bon marche? Depende muito dos graus de exigência, da experiência e do bolso, é claro. E é bom lembrar que não se deve confundir custo-benefício, bon marche ou best value, com "mais barato". Ao menos no mundo dos vinhos, o termo está mais para um misto de gosto pessoal, satisfação psicológica, senso de justiça e teoria da relatividade.
Há alguns anos li uma entrevista do crítico Robert Parker na qual ele dizia que qualquer vinho com preço superior a US$ 10 deveria ser muito bom. Com certeza ele não levava em conta a tributação brasileira para a bebida. Provavelmente, um vinho desses, em um cálculo rasteiro, custa no Brasil algo em torno de R$ 60. Acho que o crítico americano tem sua razão. Mas seria este valor considerado um bom negócio pelo consumidor médio de vinhos daqui?
A experiência me diz que, entre os produtores argentinos, chilenos e portugueses, podemos encontrar excelentes "custos-benefício" entre R$ 30 e R$ 40. Até em uma faixa abaixo destas é possível achar coisas boas. Mas, geralmente, existe um fenômeno desanimador ligado ao segundo ano do produto no mercado.
Explico. Você compra aquela garrafa de R$18 por curiosidade e a descobre como vinho do dia a dia, uma bebida agradável, fácil sem ser vulgar, com estupenda relação custo-benefício. Geralmente, encontra-a em um supermercado ou em uma loja de bebidas do bairro. Volta e compra mais. E mais uma. Acostuma-se com o sabor. Prova o conforto sem se culpar pelo gasto exagerado. O melhor dos mundos.
Passa um tempo, em geral um ano, e um belo dia você encontra este velho amigo na prateleira novamente, mas com um precinho um pouco maior. Digamos R$ 26. A safra é mais recente. As lembranças dos bons momentos vêm à mente e a nova compra é inevitável. Mas qual não é a surpresa quando, ao beber seu vinho em casa, você o descobre bem inferior, óbvio e às vezes até desagradável? É como se seu velho amigo houvesse se transformado completamente.
Não posso afirmar que seja ganância, descuido, incapacidade de aumentar a produção mantendo a qualidade, etc. O fato é que isso acontece muito. Posso citar, de cabeça, a linha Morandé Pioneiro e o Quinta de Cabriz entre vários outros que decepcionaram depois de um primeiro ano muito bom.
Acredito, por isso, que a melhor estratégia é variar. Sempre buscar aquele rótulo novidadeiro. Aquela estreia no mercado. Para isso, vale acompanhar as colunas de lançamentos. Vale também voltar ao velho amigo um ou dois anos depois, para ver se ele se regenerou. Já vi casos em que, após uma queda sensível, o produtor se esforça e consegue resgatar a qualidade inicial. Ok, não é a regra.
O aumento do número de importadores e, consequentemente, da oferta de novos produtores, facilita esta aventura em busca do Santo Graal do vinho nosso de cada dia. Contudo, a faixa mais segura, como disse antes, ainda está acima de R$ 30. E, às vezes, um pequeno investimento a mais pode resultar em uma satisfação proporcionalmente muito maior do que a esperada pela diferença de preço.
Observei isto recentemente no caso dos vinhos chilenos La Ronciere, do Vale de Rapel (importados pela KMM), com quatro linhas de faixas de preços diversas, todas com valores bem coerentes. Qual delas traria a melhor relação custo-benefício?
Alpaca - R$ 38La Ronciere Selection - R$ 42La Ronciere Reserva - R$ 59Nudo - R$ 85
Se alguém está disposto a pagar R$ 38 pelo Carmenére da linha Alpaca 2008, um tinto frutado com toques de especiarias, leve na boca e com sabores de geléia e frutas vermelhas, eu recomendo fortemente desembolsar mais R$ 4 e experimentar o Carmenére 2008 da linha Selection, por exemplo. O vinho passa três meses em barrica e traz um aroma muito mais rico de frutas maduras, canela e caramelo, com um toque de pimenta vermelha na boca e um bom corpo, algo persistente. Um autêntico best value.
Outra surpresa é o Merlot 2008 da linha Selection, pelos mesmos R$ 42. Um tinto de cor rubi, com aromas intensos de frutas secas, biscoito torrado, frutas vermelhas, ótimo ataque, encorpado, acidez muito agradável e persistência média.
Neste momento, nós nos lembramos da relatividade. Digamos que você esteja disposto a gastar um pouco mais. Quem vai dizer que os R$ 85 pelo Nudo 2005 não seriam também um excelente investimento? Ele é um Cabernet Sauvignon chileno, com passagem de 12 meses em parcelas de carvalho americano, francês e do leste europeu. Tem cor escura, nariz muito potente, complexo e interessante. Excelente corpo, macio, taninos muito bem resolvidos, notas de menta, café, caramelo, chocolate, tostados, final leve mas longo e muito agradável. A descrição de um grande vinho.
A seguir este raciocínio, a linha La Ronciere Reserva, de R$ 59 (bem o target do Robert Parker!), com bons vinhos, parece estar em desvantagem em relação aos seus irmãos um pouco mais baratos e um pouco mais caros, se o que procuramos é a epifania da relação custo-benefício. Um paradoxo?
Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

2ª FESTA DO VINHO EM SANTANA PIRACICABA

É esperado um grande público para a 2ª Festa do Vinho de Santana, nos dias 20 e 21 próximos. A organização do evento esta a cargo da Associação de Moradores de Santana e um grupo de 25 integrantes da Cooperativa de vinho. Já foram envasadas mais de 1.080 garrafas de vinho, com o custo de R$.12,00.
A produção é totalmente orgânica e artesanal, com acompanhamento de um técnico químico. Só neste ano foram colhidas uvas de mais de 10 mil pés. E a tendencia é aumentar o plantio, destaca Dirceu Santos Vitti, cooperado e produtor.
No domingo, haverá missa às 9h30, na Igreja de Santana, seguido de um almoço marcado das 11hs às 14hs. Lembram os organizadores que os pratos serão tradicionais com crauti, strangolapretti, polenta com molho,espaguete, tudo regado com o maravilhoso vinho, lembrando a região de Trento, na Itália. Haverá apresentação de grupos folclóricos. Encerramento previsto para 20hs com queima de fogos. A verba é para construção de um barracão para aumentar a produção do vinho, com um espaço adequado já localizado. Como os vinhos costumam nos dar grandes surpresas vale a pena conferir.